Os verdadeiros donos das empresas de tecnologia

27 Dezembro 2007 at 00:54 (Geral) (, )

Um dia cheguei às instalações de um Cliente para uma operação de rotina. Eu e um Amigo fizémos um projecto, em part-time e por conta própria para este Cliente. Era suposto irmos lá os 2 naquele dia, mas o meu Amigo andava com muito trabalho no seu “emprego do dia” e na noite anterior tinha estado até altas horas da madrugada a trabalhar. Ao dizer isto ao meu Cliente, que é dono do seu próprio negócio, ele comentou com espanto: “Até às 3 da manhã?… Não percebo… ainda se fosse para ele… mas, para outro? Não percebo…“. E eu, pensando bem nisso, também não percebo. Afinal, se é para me matar a trabalhar, se calhar era melhor ser para mim mesmo, não? Para mim mesmo e não para as centenas ou milhares de accionistas que detêm grande parte das médias/grandes empresas, ainda por cima adquiridas muitas vezes com base em pura especulação ou através de fundos de investimento e afins! São estes os verdadeiros donos das empresas. São estes quem a empresa na verdade se esforça por satisfazer, maximizando o lucro a todo o custo. E eles nem sequer sabem o que a empresa faz, nem que são donos de uma parte dela.

Depois de um IPO (Initial public offering) o accionista passa a ser a principal entidade numa empresa, ainda que subconscientemente, e as empresas passam a ser vistas como máquinas de dar a ganhar dinheiro fácil. Os Colaboradores, e até os Clientes, passam para segundo plano. O que interessa é manter o accionista contente, com gordas receitas e performances, a qualquer custo. A Gestão tenta encontrar o ponto em que pode penalizar as outras entidades da empresa de forma a ter mais lucro, e passa a jogar ao risco, apertando aos poucos para ver até onde pode ir. A qualidade dos produtos sofre, e consequentemente também o Cliente. E é assim nas empresas de hoje. O Cliente até já de habituou a viver com bugs.

As montanhas de livros que se escreveram, as inúmeras palestras, artigos e estudos sobre gestão de projectos caiem no fundo de sacos rotos mesmo em empresas de topo. O time-to-market é o objectivo imutável, e tudo o resto tem que se moldar de forma a cumpri-lo. Mesmo quando não há recursos. Só que há coisas que não se apressam, e já sabemos disso há muitos anos. Mas a empresa não pode obviamente parar e então desenrascam-se uns recursos, à pressa e mal formados. Training-on-the-job, é o nome pomposo que lhe dão. O resultado são projectos feitos “às 3 pancadas”. E isso sente-se bem na fase de manutenção, que acaba por ser, de longe, bem de longe, a maior de todo o projecto. Os Colaboradores da empresa vêem a sua qualidade de vida diminuir, dando mais e mais horas sem ter mais retorno e, às vezes, até sem o devido reconhecimento por parte das chefias. Por um lado há uma pressão que cresce, e que se torna constante, que os faz sentirem-se obrigados a trabalhar mais, caso contrário há sempre penalizações implicitas, por mais que se diga que não (um prémio que não se recebe, um aumento que não se tem, um mau ambiente que se cria, uma oportunidade de carreira que não é sugerida). Por outro lado, o seu próprio brio como profissionais teima em não impedir que trabalhem o que for preciso para que o projecto termine com sucesso e no prazo. Com o tempo começam a mal-dizer da empresa, das chefias, até dos próprios produtos que têm que fazer em cima do joelho; acumula-se um manancial de tarefas de manutenção de toda a carreira anterior de projectos que teimam em dar problemas logo nas piores alturas. A frustração é inevitável! Mas o conforto de um emprego seguro e o comodismo natural das pessoas vai deixando para trás essas “pequenas chatices”. E a ideia de que “é assim em todo o lado” dá o golpe de misericórdia em qualquer tentativa de se mexer uma palha que seja no sentido de arranjar uma solução para o problema.
É aqui que se joga ao risco, pressionando os colaboradores para trabalhar o mais possível sem a compensação adequada, nem monetária nem em descanso. Infelizmente, muitas vezes, quando o Colaborador chega ao ponto em que decide procurar outro rumo para terminar com a “exploração” semi-consentida, já tem a cabeça toda queimada do stress, PUUFFFF!… Há coisas das quais já não se recupera.

É indiscutível o dinheiro movimentado e a economia gerada pelo mercado de acções. Mas e então? Faz-se à custa de quem trabalha? Não pode ser não senhor. Pelo menos não comigo. Se eu um dia tiver uma empresa, ela nunca há-de ter pedaços vendidos a compradores anónimos sedentos de lucros fáceis, lamento. Mesmo que isso custe um não-crescimento ou uma não-expansão. A riqueza gerada na empresa deve voltar a quem lá trabalha. Sei que nunca é uma palavra muito forte, mas é a única que neste momento me sinto capaz de empregar. E quanto a ver a minha cabeça ser queimada por causa de accionistas que nem sabem que o são, evitá-lo será de agora em diante um dos meus objectivos na vida. Se me queimar, será a trabalhar para mim mesmo.

2 comentários

  1. Vasco Névoa said,

    Palavras para quê… disseste tudo.🙂

  2. Jorge said,

    Pra mim os traficantes de droga e toda a rede que distribui até ao consumidor faz um trabalho mais ético e civilizado que estes senhores a jogarem o “Monopólio”.

    Palavras pra quê.

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