A Ciência e a Arte vão à feira

27 Outubro 2007 at 23:31 (Geral) (, , , , )

Em 2005 a conhecida editora de livros técnicos O’Reilly fundou uma nova revista, a Make:, direcionada especificamente a pessoas que gostam de criar, de alterar e fazer coisas com as suas próprias mãos. Depois, começaram a inventar…

A Make: estava mais direcionada para quem tem habilidades mecânicas e elétricas/eletrónicas, mas depois acabaram por criar uma nova revista, a Craft:, para quem tem habilidades mais tradicionais. De qualquer forma, o tema central de ambas é o DIY (Do It Yourself). Penso que a Make: rapidamente ganhou subscritores e fama, quanto mais não fosse porque tendo a O’Reilly por trás, com a sua fama, reconhecimento, peso e experiência, um projecto destes não sairia para perder. Eles fizeram o seu trabalhinho de casa antes de arrancar. Mas claro que a revista, que também pode ser subscrita on-line, veio atacar um nicho sem concorrência, pelo menos à sua escala (mundial).

Num passo seguinte, a Make: começou a organizar em vários locais dos Estados Unidos (o seu país de origem) a Maker Faire, a que se associa muitas vezes o sugestivo slogan Meet the Makers. Tive a oportunidade de estar por perto de San Mateo na Califórnia onde foi realizada a penúltima feira, à cerca de 5 meses, e claro que dei lá um saltinho. Fui na ânsia de encontrar no mesmo lugar muitos inventores, e ao aproximar-me da entrada fiquei espantado com a dimensão do recinto e da quantidade de pessoas e famílias inteiras que iam entrando. Na verdade, a maior parte das pessoas eram “apenas” o cidadão comum, que ia ali à feira tal e qual como nós portugueses vamos à Feira Popular… e na verdade, a feira era um pouco parecida com uma feira popular. Não propriamente como a nossa, mas popular. Ela estava pejada essencialmente de artistas, a maioria dos quais criadores de obras usando ou relacionadas com Tecnologia.

Havia uma espécie de trupe de palhaços que operavam máquinas literalmente a pedal. Numa das ruas principais estava um dinossáurio mecânico (à direita no cartaz em cima), que emitia uns sons e piscava umas luzes, de acordo com as festinhas que lhe fizessem; a avaliar pelas rodas e motor, aquela “coisa” provavelmente andava mesmo, apesar de eu não ter chegado a ver. Num outro grande espaço os The Crucible exibiam parte das suas máquinas expelidoras de fogo, e a moto movida a BioDiesel (o cheiro fazia logo lembrar um belo prato de batatas fritas). Houve alguns espectáculos de variedades e outras actividades lúdicas ao ar livre, como o lançamento de foguetões para crianças ou a corrida de mini-veículos feitos de ferramentas elétricas. Ainda cá fora, havia então uma pequena área cheia de veículos elétricos em tamanho real, alguns fabricados de raíz, outros modificados, e expostos ali pelos próprios inventores de garagem ou empresas, e também muitas obras artísticas como aquele Senhor que recicla material informático em motos. Tive oportunidade de falar com um outro Senhor que construiu um triciclo elétrico, e que tinha vindo para a feira nele mesmo.
Havia ainda outras atracções como o homem que construiu uma bicicleta geradora e estava lá a dar energia a um conjunto de eletrodomésticos; ou uns alunos de uma universidade da outra ponta do país que estavam a desenvolver um veículo de corrida a pedais.

Mix de fotos

No interior de pavilhões algumas empresas mostravam os seus produtos, desde brinquedos a algumas coisas um pouco mais sérias. Num pavilhão de robótica podíamos encontrar uma boa parte das empresas que vendem robots de brincar e houve oportunidade de ver ao vivo grande parte daquilo que eu já tinha visto na net. Havia um grande pavilhão destinado apenas a actividades para crianças, em que podiam construir coisas por exemplo a partir de peças velhas de computadores ou outros materiais que estavam disponíveis (os graúdos também tinham uma pilha enorme de material informático que podiam reciclar noutro tipo de objectos). Vai-me ficar sempre na cabeça uma miudita de palmo e meio que ia a passar toda contente a tocar um piano de polegar que consistia num conector PCI sem a base de plástico. No pavilhão de robótica, além de uma míriade de pequenos robots, comerciais e não comerciais, havia uma enorme arena onde se disputou uma competição de ferozes robots, a BattleBots. De um dos lados uma anorme bancada enchia-se de gente à hora dos combates e um comentador empolgado puxava e fazia vibrar as massas enquanto robots de peso literalmente se aniquilavam. Num dos cantos da arena estava um pedaço de plástico partido que fora outrora uma das protecções, com o comentário “this is what happened yesterday!“. Num outro pavilhão era possível aprender a utilizar máquinas sérias de fabrico, como fresadoras CNC, gravadoras a laser, fundidoras de metais, protótipagem 3D e outras, tudo com o patrocínio e supervisão da TechShop (a propósito, cá fica um excelente overview do TechShop; rói-te de inveja, geek português!).

Apesar da aparente abundância de Ciência, a verdade é que a Arte era dominante. Muito do material exposto era mais Arte do que Ciência. Esperava ver na feira criações mais sérias como por exemplo robots autónomos, mas na verdade não havia um único; todos os robots na exposição eram controlados remotamente por um humano, ou eram humanos mascarados de robots🙂 (mais tarde tive a oportunidade de ver umas coisitas mais a sério no Robogames em San Francisco). Vim de lá com a ideia de que estive mais numa feira de diversões do que propriamente numa feira de Ciência como pensei inicialmente.

People @ Maker Faire Bay Area, May 2007

De qualquer forma acho que até nem foi mal jogado da parte da Make:. Não nos podemos esquecer que a Make: não deixa de ser um negócio, e um negócio quer clientes, quantos mais melhor. Ao dar à feira um ar mais “light” transformando-a num misto de espectáculo-de-variedades com mostra de Arte com feira de Ciência e inúmeras actividades para os mais pequenos, esta feira tem uma abrangência e um sucesso consideravelmente maiores.

Foi bastante notório a atenção que foi dada em cativar os mais pequenos para o DIY em Ciência e não só. Tenho a certeza que todos eles se divertiram pelo menos tanto como se tivessem ido à Feira Popular (e a feira tem um bilhete único que dá acesso a tudo, $20), com a diferença de que foram amplamente expostos à Ciência & Tecnologia e à Arte e ao prazer do DIY, e saíram de lá com a curiosidade e criatividade amplamente estimuladas. E isso terá certamente despertado dentro de muitos deles um bichinho que irão perseguir nas suas vidas1. Quando a Ciência se cruza com a Arte, ela consegue cativar as pessoas muito mais facilmente.

1Tendo em conta que existe actualmente nos Estado Unidos um declínio no número de estudantes que pretendem seguir uma carreira em engenharia, aparentemente pondo até em perigo a sua posição de líder tecnológico no futuro, não ficaria muito admirado se estas feiras tivessem por trás uma mãozinha do governo americano… seria mesmo “à americana”.

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